Dia 24/07 é considerado o dia do suinocultor. E, em meio a incertezas trazidas pela pandemia de coronavírus, os criadores têm motivos para comemorar. Só em junho, as exportações de carne suína aumentaram 50,4% em relação ao mesmo período de 2019 (dados da Associação Brasileira de Proteína Animal – ABPA). E o setor segue avançando em iniciativas que podem agregar valor à cadeia produtiva e ser mais sustentáveis. Além da produção de carne, a suinocultura tem um alto potencial na geração de energia renovável e de biogás, agregando aumento da rentabilidade, otimização da destinação dos resíduos e reduzindo o impacto ambiental.

Segundo relatório da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), com base em dados de 2019, se o Brasil utilizasse hoje todo o resíduo da criação de suínos para a geração de biogás, poderia produzir quase 2,7 bilhões de m³/ano de biometano (combustível oriundo da purificação do biogás e que poderia substituir o diesel). Além de gerar 9.690,64 GWh de energia elétrica ao ano (ou 26,55 GWh/dia), suficiente para quase 5 milhões de casas todo mês. Com isso, quase 2,5 bilhões de litros de diesel deixariam de ser usados ao ano, reduzindo em cerca de 96% as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

“O momento é ideal. Temos hoje a legislação da geração distribuída, que é um grande incentivo para a geração de energia e facilita bastante. Um produtor de suíno que faça uma planta de biogás eficiente, além de ser uma indústria de produção de proteína animal, ele transforma isso numa indústria de energia, ele pode ter uma renda muito importante adicional com isso. Hoje tem knowhow no Brasil para produzir biogás de maneira eficiente e já temos cases de sucesso que estão funcionando com bastante disponibilidade e qualidade”, diz o presidente da Abiogás, Alessandro Gardemann.

Residente em Castro (PR), o suinocultor Jan Hassjer, holandês que está no Brasil há mais de 45 anos, instalou o primeiro biodigestor na sua propriedade em 2003. O modelo é canadense e, hoje, juntamente com outros dois – o último instalado em 2013, construído na propriedade “numa versão mais tupiniquim” – possuem uma capacidade de armazenar até 6.000 m3 de biogás e são abastecidos por efluentes e subprodutos industriais, como a gordura animal. Diariamente, é possível produzir, pelo menos, de 1.000 m³/dia a 2.000 m³/dia, a depender da matéria-prima utilizada.

Com um plantel de 1.200 matrizes, agricultura e produção substrato para o cultivo de cogumelos, o produtor usa a energia gerada na sua propriedade para secar grãos e aquecimento da água utilizada na maternidade e creche de porcos e leitões. Dentro das casas, o biodigestor gera energia elétrica e biogás para utilizar na cozinha. Além disso, utiliza caminhonetes, empilhadeiras e até um trator que são abastecidas com biometano.

Hassjer aconselha os produtores interessados ter um biodigestor que avaliem, antes de tudo, a aplicabilidade do gás que será produzido. “Se eles têm alguma aplicabilidade para o gás, é interessante ter um biodigestor, senão não vale a pena investir. Você tem que ter algo para fazer com aquele gás, transformar em dinheiro e fazer energia elétrica, biometano. Ou você toma atitudes nesse sentido, ou o seu projeto é inviável. O que muitos produtores também se esquecem é que um biodigestor precisa de manutenção e controle constante, um acompanhamento quase que diário”, explica o suinocultor.

Usina

A experiência de Hassjer foi replicada em maior escala no projeto da Alegra Foods de uma usina de biogás, a Energik, integrante da intercooperação Unium, que reúne as cooperativas de origem holandesa Frísia, Castrolanda e Capal. Com um investimento de R$ 13,8 milhões, a usina tratará diariamente de cerca de 20 toneladas de resíduos sólidos (lodo biológico) da produção dos cooperados para gerar biogás, que será transformado em biometano e usado como fonte de energia, além dos biofertilizantes, no processo secundário.

A usina conta tem potência instalada de 1.200 kW ou 1,2 MW. Serão, aproximadamente, 550 m3/hora de gás, o que dá em torno de 13.200 m3 por dia de gás gerado. O processo deve gerar uma economia de R$ 1,5 milhão por ano, além do benefício ambiental e para a imagem do produtor brasileiro no mercado internacional.

Gilvan Plodowski, engenheiro florestal e responsável pela Energik, explica que o investimento é também uma maneira de abrir portas para os mercados internacionais que estão cada vez mais exigentes com a produção sustentável. “Vejo como uma demanda do mundo. Mercados europeus e da Ásia já estão começando a exigir selos que certifiquem que a sua produção é sustentável. Por isso, a gente vislumbrou também como uma oportunidade de mercado, de oferecer um produto pro exterior que tenha uma pegada ambiental positiva. Mostrar para o nosso cliente que agimos de maneira diferente”, ressalta.

A suinocultora Eslbeth Verbirg, de Arapoti (PR), que conta com uma produção de aproximadamente 480 suínos por ciclo, tem como uma das grandes preocupações a destinação dos resíduos da criação dos animais. “Os dejetos são um problemão para nós, produtores. Eu tenho 60 hectares de área, mas tenho muito mais dejeto que a área pra jogar. Uma hora, meu solo vai estar saturado e aí ambientalmente não vou poder jogar nessa área”, explica.

Ela armazena o resíduo em uma fossa dentro dos parâmetros exigidos e os dejetos são usados na produção de soja, milho e aveia, mas está apostando na usina como forma de ser mais sustentável e o futuro para a continuidade do setor. Além dos suínos, ela conta com uma leiteira com 150 vacas em lactação.

“É muito dejeto, então eu vejo um potencial grande que se partisse de uma empresa instalar um biodigestor aqui, e coletasse diariamente os dejetos frescos, como se busca leite ou suíno na propriedade, levasse para uma central de tratamento e geraria energia limpa, fora que o resíduo sólido se reaproveita vendendo ou retornando para o produtor como fonte de adubo para a lavoura. Seria vantajoso tanto para o produtor, para o meio ambiente como para a geração de energia”, reflete a suinocultora.

Linhas de crédito

Agentes financeiros dispõem de linhas de crédito para produtores interessados em investir na tecnologia. “Existem linhas do BNDES e do BB (Banco do Brasil) são muito interessantes, além do Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) e do Programa Fundo Clima, do BNDES. A gente acha que o futuro do biogás é brilhante. Temos metas agressivas de crescimento e acho que vamos entregar”, destaca Gardemann.

Além das linhas de crédito, a legislação brasileira hoje já favorece bastante esse tipo de geração de energia. A resolução 482 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foi o marco regulatório que permitiu aos consumidores realizar a troca da energia gerada com a da rede elétrica, criando as regras e o sistema que compensa o consumidor pela energia elétrica injetada na rede.

Desde 17 de abril de 2012, é permitido o acesso de microgeração e minigeração distribuída aos sistemas de distribuição de energia elétrica nacionais (redes elétricas das concessionárias). Com a entrada em vigor da Resolução Normativa no. 687, em março de 2016, cria-se novos nichos de consumidores e possibilidades de negócios e diminui o processo burocrático para a inserção das centrais geradoras junto às concessionárias de energia elétrica.

Para Polowski, apesar do longo caminho que o Brasil ainda tem pela frente na consolidação dessa tecnologia no setor agropecuário, as novas regulamentações possibilitaram acelerar esse crescimento que não era possível até 2015. “É uma questão de tempo para outras unidades e frigoríficos de outras empresas, o setor do governo com a parte de resíduos sólidos e os produtores rurais de conseguir tratar um item, que gera um custo pra você destiná-lo adequadamente de volta para a natureza. Mas também fazer com que esse recurso passe pelo mesmo processo de tratamento e volte para a cadeia, gerando fertilizantes, além de erar receita e energia limpa”, ressalta.

Segundo Gardemann, a meta da Abiogás é atingir 30 milhões de metros cúbicos por dia de produção de biometano, que seria 40% do potencial de hoje, até 2030.

Dados mais recentes sobre a produção de biogás e biometano no Brasil, reunidos no BiogasMap, estudo divulgado recentemente em parceria com a ABiogás, mostram que, atualmente, há 521 plantas no Brasil em operação, além de 15 em implantação e 12 em reformulação. Com uma produção anual de 1,3 bilhão de m3/ano, o biogás não chega nem a 2% do seu potencial de produção, que é de cerca de 84 bilhões de m3/ano. Ainda segundo os dados do BiogasMap, 78% das plantas são de pequeno porte e apenas 6% de grande porte, mas que correspondem a 77% do volume total de biogás produzido.

Fonte: Globo Rural