Um planejamento iniciado no ano de 2015, batizado de PRC 100, está muito próximo de se realizar. A meta proposta pelo Sistema Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) era ousada: saltar de um faturamento de R$ 50 bilhões anuais para R$ 100 bilhões. Um enorme desafio, levando-se em conta o atual momento econômico e os impactos da pandemia em todo o planeta.

Mas nem o novo coronavírus foi capaz de barrar o crescimento do cooperativismo. A entidade prevê que o novo recorde seja batido oficialmente no fim deste ano. A partir de 2021, um novo planejamento deve ir em busca do marco de R$ 200 bilhões anuais. 

Na agricultura, perto de 65% da safra paranaense passa pelo sistema cooperativista. Na pecuária, 45% da produção de proteína animal, como aves, suínos, leite e peixes também têm a participação dos cooperativados.

Entre os pontos chave listados pelo presidente do Sistema Ocepar, José Roberto Ricken, para atingir esses resultados, está a aposta em atividades economicamente viáveis e muito bem definidas. Também teriam peso fundamental os investimentos em gestão profissionalizada, governança e compliance, bem como em certificação de rastreabilidade e de sustentabilidade.

Ao todo, mais de 120 agroindústrias contribuem para uma economia robusta do setor, que planeja um lucro líquido de cerca de R$ 5 bilhões anuais, dos quais R$ 2,5 bilhões são reinvestidos para criar oportunidades e transformar matéria-prima em produto acabado e agregar valor, já que as cooperativas do estado exportam para mais de 120 países ao redor do mundo.

As cooperativas agropecuárias estão chegando a US$ 4 bilhões para exportação por ano, e quase metade vem da produção de soja e proteína animal. E é exatamente nesses segmentos que as cooperativas estão aplicando seus investimentos.

O Canal Rural teve uma longa conversa com José Roberto Ricken sobre o sistema cooperativista do Paraná, que reúne 221 entidades, com cerca de 2,6 milhões de cooperados registrados.

Segundo ele, além do agronegócio, outros seis ramos de atividade são desenvolvidos pelas cooperativas: crédito, saúde, transporte, infraestrutura, serviços especializados e cooperativas de consumo. As cooperativas de crédito estão em ascensão, mas é a agropecuária que comanda 84% do movimento econômico. Confira a entrevista:

Canal Rural – A Ocepar vai completar 50 anos em 2021 e, ao que tudo indica, com um faturamento recorde anual de R$ 100 bilhões de todas as cooperativas associadas. Pode nos dar um panorama do universo cooperativista do estado?

José Roberto Ricken – Temos um universo de 2,6 milhões de cooperados, sendo que 2,3 milhões, quase 2,4 milhões, são associados de cooperativas de crédito. Com a livre admissão, qualquer pessoa pode se associar à cooperativa de crédito como Sicredi e Sicoob. Na agropecuária, temos cerca de 190 mil produtores associados às cooperativas. No último ano, tivemos a inclusão de 6,5 mil produtores novos, principalmente no processo de integração de proteína animal.

Temos 114 mil empregados diretos e mais de 1 milhão vindos de parceiros e empresas que prestam serviços às cooperativas. É um resultado do trabalho do cooperativismo. Essa é uma atividade consolidada, de milhares de empresas, que se formam em torno da cooperativa para prestar serviço, que muitas vezes acaba transformando a economia das cidades, já que envolve muita gente.

Canal Rural – E sobre essa meta de faturamento de R$ 100 milhões anuais. É verdade que esse número é fruto e um planejamento feito lá em 2015?

José Roberto Ricken –  Sim. Estamos prevendo neste ano ultrapassar os R$ 100 bilhões em faturamento por ano. Esse número não é definitivo, já que vamos fechá-lo em dezembro, mas vamos, sim, ultrapassar esses R$ 100 bilhões.

O resultado líquido (lucro) desse montante é de quase 5%, parte que é distribuída e reinvestida. Esse é o recurso do produtor que é reinvestido em novas oportunidades, como agroindústria e infraestrutura, ou devolvido para ele como participação dele nesses resultados.

Canal Rural – E qual a participação do agronegócio nesse universo?

José Roberto Ricken – O ramo que mais cresce em número de cooperativados é o crédito, mas o que tem a maior participação econômica é a agropecuária. Cerca de 84% do movimento econômico das cooperativas vem da agropecuária, onde já estamos com quase dois terços do recebimento das safras. Recebemos praticamente 65% do equivalente da safra no estado do Paraná e 45% da produção de proteína animal, como aves, suínos, leite e peixes, que é uma novidade para nós.

Estamos com mais de 120 agroindústrias, boa parte delas novas, bem localizadas nas áreas das cooperativas. Em média, o cooperativismo investe por ano R$ 2,5 bilhões desses quase R$ 5 bilhões que são gerados. Esse reinvestimento é para criar novas oportunidades, para transformar matéria-prima em produto acabado para chegar a mais de 120 países ao redor do mundo

Neste ano, nossa demanda por investimento é um pouco maior, porque no ano passado houve um represamento dos investimentos. Nossa demanda este ano seria por R$ 3,5 bilhões. Mas, provavelmente, não se concretize pelas dificuldades de se ter insumos para fazer esses investimentos. Em grande parte ligado à proteína animal e complexo soja, onde tem muito espaço para agregar valor.

As cooperativas estão chegando a US$ 4 bilhões para exportação por ano, e isso muito ligado a matéria prima de soja e proteína animal, que chega muito próximo a metade dessa exportação. Onde crescemos ainda é em carnes. No mercado de frango, estamos com cerca de 50% do que se produz no estado. No mercado de suínos, atingimos 60% e no de leite são 40%, com tendência de aumentar. No mercado de trigo são quase 60%, milho acima dos 60% e soja acima dos 70%.

Canal Rural – O cooperativismo paranaense é reconhecido por sua eficácia e resultados. Ao seu ver, qual o segredo desse sucesso?

José Roberto Ricken – Para um movimento desse dar certo, primeiro ele precisa ser necessário. O movimento já é uma necessidade, porque o produtor quer participar do processo de agregação de valor. Interessa principalmente para os menores produtores e 80% dos nossos são da agricultura familiar, na casa dos 50 hectares. Esse pessoal precisa agregar valor no que está produzindo, pois, se optar só por produzir grão ele não sobrevive. Então, o segredo está em você criar oportunidades para que ele possa se inserir dentro de uma agregação de valor maior.

Essa oportunidade pode ser em uma integração de frangos ou suínos, ou até de peixes, que tem um mercado muito interessante. Isso faz com que o produtor tenha oportunidade de participar da fase seguinte e eles se animam com isso.

O segundo segredo seria o interesse, que só existe com atividades viáveis economicamente e muito bem definidas, em uma gestão que se profissionalizou muito. Nós temos modelos de gestão nas nossas cooperativas que não devem nada para qualquer sistema de nível internacional. Como tem muita gente envolvida, milhares de pessoas, precisa ter um sistema transparente, organizado, preparado para se dar conta disso.

Foi investido, ao longo dos anos, em sistema de governança, compliance, gestão, certificação de rastreabilidade e sustentabilidade. Tudo isso é necessário, pois não se tem a informalidade no nosso meio. Não tem como fazer algo informal. Isso não existe há muito tempo, e é o segredo para o modelo jurídico e de gestão.

A diferença talvez do cooperativismo no Paraná para outras regiões é que aqui sempre houve planejamento. A Ocepar surgiu em 1971 como resultado de um planejamento, que na época das instituições que apoiavam o cooperativismo, entenderam que deveria ter um órgão para coordenar isso.

Canal Rural – Por falar em planejamento, pode nos explicar como funciona o Plano Paraná Cooperativo, que deu origem à meta dos R$ 100 bilhões anuais de faturamento?

José Roberto Ricken – Nosso Plano Paraná Cooperativo era feito a cada cinco anos. Tivemos, por exemplo, do ano 2000 para cá o plano de 2000, depois 2005 e 2010. No ano de 2015, nós fizemos uma alteração e, ao invés de estabelecer para cinco anos, as cooperativas definiram uma meta. Na época, faturamos R$ 50 bilhões na soma de todas as cooperativas e essa meta foi ampliada para R$ 100 bilhões. O projeto se chama PRC 100, que tinha esse objetivo de dobrar de R$ 50 bilhões para R$ 100 bilhões, começando em 2015.

Hoje, em 2020, nós vamos atingir essa meta. E as cooperativas já aprovaram a ideia, referendada em reuniões regionais, para o PRC 200, para dobrar essa meta mais uma vez. Estamos contratando consultores para nos apoiar e, na pré-assembleia que faremos em março, devemos aprovar o projeto. No dia 5 de abril, nos 50 anos da Ocepar, devemos aprovar as diretrizes desse plano para montar os projetos visando chegar aos R$ 200 bilhões.

Não temos um tempo fixo, mas temos projeções dependendo da realidade de mercado. O segredo é planejamento. Se não tiver planejado, não se sabe para onde vai.

Antigamente a gente produzia e tentava vender o produto. Agora não: temos que identificar a demanda e entender como será feita essa entrega. Isso dá menor remuneração e foge um pouco da lógica de depender do mercado internacional das tradings. Seremos os atores principais do processo em nível internacional.

Canal Rural – Sem dúvida o resultado é espetacular. Mas o efeito da pandemia não colocou em risco essa meta em 2020? Como as cooperativas enfrentaram este ano tão atípico?

José Roberto Ricken –  Talvez não seja um ano para comemorar. É um ano totalmente atípico, que não vai servir de referência para planejamento a longo prazo por causa de uma situação inusitada onde todos foram afetados.

Momentaneamente, pode ser um ano de resultado econômico bom, em função até de fatores externos como demanda por alimentos de nível internacional, o que nos abriu possibilidade para avançarmos em alguns mercados. E onde o Brasil entra, ele se consolida porque tem condições de fazer isso.

Temos gente preparada, espaços a serem ampliados, tecnologia e tudo mais para produzir alimentos. O Brasil deveria colocar essa produção de alimentos como prioridade, e não é uma distinção entre rural e urbano, pois 70% desse trabalho é feito no meio urbano. Os 30% ficam na parte de produção, mostrando como é um complexo meio de negócio e que beneficia a todos. É bem além do agronegócio, pois esse meio beneficia o mundo urbano, a industrialização.

Pelo fato de as nossas atividade serem essenciais, tanto o agro, como o abastecimento, o transporte e o crédito, tivemos um ano de 2020 não tão impactado como outros setores. Destaco o crescimento das cooperativas de crédito, pois não têm aquela visão distante que um banco tradicional tem, e nós somos criados dentro da comunidade. Se sabe por nome e sobrenome, filhos e netos daquelas pessoas que estão dentro do cooperativismo.

Isso vai crescer muito, porque está ligado às bases e não tem como impedir isso. Isso vai ser uma realidade. Outro ramo fundamental para nós é a saúde. Hoje, um terço do atendimento são os planos de saúde e a Unimed participa disso. A Unimed hoje tem uma participação muito expressiva no atendimento à saúde no Paraná.

O fato é que as atividades do cooperativismo não pararam e não podem parar. Imagina abater 2,5 milhões de aves por dia, precisamos ter no campo alojadas 100 milhões de aves. Essas aves precisam ser alimentadas, cuidados, receber medicamentos e isso não ocorre de uma hora para outra. Nós tivemos que nos adaptar a duras penas no início, porque nós tivemos sentenças judiciais para fechar as agroindústria. Mas tivemos que resistir, pois o que faríamos com tanta matéria-prima? Seria um caos.

Nós nos adaptamos a isso perfeitamente e provamos que as contaminações não se davam dentro das unidades, porque lá já se usa máscara e toda a higienização necessária para a produção de alimentos. O ambiente não é de contaminação, pelo contrário.

Obviamente as pessoas não vivem lá dentro, elas saem e voltam, e os problemas que tivemos foram com essas pessoas que voltaram contaminadas. Diante disso, tivemos zelo com essas pessoas e montamos esquemas de distanciamento, divisão e testes de temperatura. Quando as pessoas entravam na indústria, tentava identificar para que a contaminação externa não viesse.

É um ano complicado em todos os sentidos, mas aprendemos muito. Aprendemos a trabalhar remotamente, de forma organizada e avançamos um pouco mais que a sociedade desorganizada, que tem que se virar sozinha.

Canal Rural – Você disse que o lucro é reinvestido nas cooperativas para que sejam criadas melhores condições de negócio. Como isso é feito?

José Roberto Ricken –  Essa decisão de onde investir é individual de cada cooperativa. O que a gente vai fazer é criar as condições para que isso se efetive. O PRC 200, por exemplo,  é uma soma dos planejamentos individuais das cooperativas. O que  e quando investir é uma decisão de cada cooperativa. É óbvio que nós vamos atuar para que as condições estejam presentes. Por exemplo, trabalhar para que dentro do Plano Safra tenha um programa de investimento que contemplem esses objetivos.

Desenvolvemos o Programa de Desenvolvimento Cooperativo para agregação de valor à produção agropecuária (Prodecoop), Moderfrota para financiamento de máquinas agrícolas, e o Programa de Capitalização das Cooperativas de Produção Agropecuária (Procap-Agro). Todos esses programas que estão aí, a Ocepar e Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) trabalham para instrumentalizar os interesses. É assim que funciona. Essa decisão tem que ser própria de cada um e os interesses estão lá na ponta.

Canal Rural – Por fim, quais são os desafios do cooperativismo no Brasil. Apesar dos bons resultados conquistados, há alguns entraves que ainda preocupam esse tipo de atividade?

José Roberto Ricken –  Os desafios são muitos. O primeiro deles é passar por essa situação que estamos vivendo hoje e planejar bem para viver esses desafios. Mas consigo citar três pontos que nos preocupam bastante. O ponto número 1 é a questão do mercado como um todo. Dentro de mercado, um ponto bem atual é imagem do Brasil na questão ambiental e outras que podem afetar as atividades que fazemos.

Nós vimos recentemente na Europa tentarem associar a produção de grãos do Brasil a incêndios nas florestas, o que não tem nada a ver conosco. Não é o produtor que está fazendo isso. Produtor que é profissional não é maluco de botar fogo para acabar com a matéria orgânica que ele tem na sua propriedade.

E está prevalecendo essa ideia de que o Brasil é assim. Essa é uma questão. Então, tudo o que for relacionado a mercados, tudo que for demanda, como se identificam os interesses, as realidades, não permitir jamais que se tributem as exportações. Esse é um desafio, já que boa parte da nossa produção não se destina ao mercado interno.

Um segundo ponto que precisa estar sempre no radar é a questão da sanidade. Essas pandemias que vemos hoje, mais relacionada à população, também existem na produção de animais. O cuidado que se deve ter pode colocar tudo a perder se não tiver um sistema de sanidade robusto e organizado.

Acho que estamos na frente de vários países do primeiro mundo nesse sentido, mas não podemos jamais desconsiderar essa ameaça. Isso vale para aftosa, peste suína, gripe aviária e todas as epidemias que circulam em nível internacional.

E o terceiro ponto de atenção é continuar investindo no modelo de cooperativismo. Continuar a criar oportunidades para o público que precisa. Se nós fossemos uma empresa tradicional, já teríamos sido comprados, mas queremos fugir disso. Não estamos à venda.

Queremos desenvolver o cooperativado que está conosco, dentro de situações profissionais, para que ele tenha renda. Essa é a nossa finalidade e que vai muito além de um interesse empresarial simples. É um espaço que nós temos que cultivar cada vez mais.

De maneira geral, sou bem otimista com esses desafios e acredito que nosso trabalho irá prevalecer.

Fonte: Canal Rural